sexta-feira, 5 de abril de 2019

VIII - TRATO


- Então, recapitulando, você é um homem comum, muito velho que estudou muito e aprendeu a viajar no tempo, mas tem outra pessoa que também consegue fazer isso e isso é tremendamente perigoso, o que significa que essa pessoa precisa ser detida? – Questiona, Andrian, encarando Gesh ao pé de uma árvore de folhas largas, afastados da estrada, e fora do alcance dos recém empregados de Arthur Cadana – E você é o escolhido de um ser primordial do mesmo nível de uma divindade para realizar um feito importante para a perpetuação do universo, mas não pode saber dos detalhes da sua missão até que chegue o momento crucial? – Encara o pequeno felino, Andrian, com semblante de desconfiança.
- Joko. O nome dele é Joko. E também ele não pode ser visto, nem ouvido, nem tocado, nem cheirado, nem lambido por ninguém a não ser eu. Isso ficou estranho, mas eu só queria deixar claro que nenhum dos sentidos funcionam ao interagir com Joko, a não ser que seja o escolhido, que no caso é conhecido como Eu, mas vocês chamam de Meji, Mejimeal, Gato, você aí, psiu, essas coisas. Ele também me ensina fazer várias coisas, como misturar um monte de tranqueira sem sentido e pronunciar umas palavras que ele inventa pra parecer magia e tal, mas é só o poder dele agindo da vastidão da primordialidade dele fazendo com que as leis que fazem o nosso mundo funcionar sejam violadas ao seu gosto. Ele já me mandou pegar insetos mortos, bosta de morcego e um punhado de...
- É sempre que ele faz isso? – Pergunta, Gesh, ao cavaleiro enquanto Meji se empolga ao falar de Joko.
- Acredite, eu já fiz o teste de ver até onde ele vai. As vezes não para mesmo – Responde, Andrian, calmamente enquanto puxa fôlego e encara Mejimeal – MEJIMEAL!!! – E o felino interrompe seu discurso no meio de uma de suas palavras – Você não pretendia me contar que mexe com bruxaria?
- Tecnicamente, nas palavras do Joko, é feitiçaria, porque meio que ta no meu sangue e essas coisas. Bruxaria precisa ficar devendo pra alguma entidade, parece mais maligno do que o que eu faço.
- Eu me lanço na frente de espadas por valores que acreditamos e você não confia em mim?
- Olha, confiar eu confio muito, mas você me tirou da fogueira porque me acusaram de bruxaria. Eu imaginei várias vezes como seria sua reação comigo chegando em você e falando “olha, valoroso paladino de Cura, eu faço magia seguindo as ordens de um espírito ancestral que você não é capaz de ver. O que quer pro jantar?” e em nenhuma das vezes eu tive um resultado sequer neutro – O garoto magricela vai falando enquanto deixa sua bolsa no chão e abre os braços – Pronto, sem magia nenhuma. Fale o que quiser, faça o que quiser. Eu confio plenamente em você.
Apreensivo, Gesh começa a procurar afoito em algo dentro de sua bolsa temendo não haver tempo o suficiente para que consiga impedir o grandalhão no caso de uma atitude hostil.
Andrian desembainha sua enorme espada de aço negro e com dois movimento muito rápidos e precisos, crava sua espada até a metade no solo. Com apenas a mão direita sobre o cabo, o cavaleiro se põe a falar.
- Pequeno. Eu já lhe disse algumas vezes. Meus superiores estão todos mortos. Sigo apenas aos comandos do deus Cura e o meu juramento, que em hipótese alguma inclui fazer mal a um garoto que não seria capaz de fazer mal a ninguém – O cavaleiro, emocionado, dá passos apertados na direção do pequeno felino com os braços abertos na intenção de um abraço, mas seu corpo atravessa o corpo etéreo do felino, que se desfaz na bruma da noite.
No galho mais afastado da árvore ao lado deles, Meji se equilibra de pé com uma mão na cabeça e sorriso forçado:
- Então... como eu ia dizendo. Eu confio, mas vai que né...
Antes mesmo que Andrian pudesse se enfurecer, o velho explode numa gargalhada genuína que imediatamente contagia os dois. O brutamontes derruba o pequeno gato arremessando sua bainha no galho e ao fim das gargalhadas decidem por retornar à taverna, concluir a conversa que poderia ser longa num local mais seguro e reservado.
Os primeiros raios de sol já ultrapassam os vãos das janelas do quarto da taverna do Vorme Dor-Minhoco. No caminho para a taverna Mejimeal havia contado toda a sua vida com uma incômoda riqueza de detalhes, o que fez com que não conseguisse se manter acordado durante a noite.
Gesh havia contado muita coisa a respeito de seus poderes, mas uma parte realmente pequena havia sido inteligível a Andrian. Uma parte menos ainda parecia fazer sentido, mas o cavaleiro se esforçava:
- Cura, Fera e Venara criaram segredos para que o mundo pudesse funcionar, certo? – Com um pedaço de carvão fino e diversas folhas de papiro de Gesh espalhadas à sua frente, Andrian questiona enquanto faz diversas anotações.
- Isso mesmo!
- Você tem parte de um desses segredos e eles precisam se manter assim, escondidos...
- Pode-se dizer que sim
- E é isso que te faz poder viajar para o futuro e para o passado...
- Na verdade é como se eu conseguisse andar através das ramificações do universo, em qualquer linha temporal, e em qualquer ponto de qualquer uma delas. Eu vejo todas as possibilidades de linhas temporais como você vê o emaranhado de estradas assim que sobe um monte bem alto.
- Entendi... Entendi... – Apanha um dos papiros e anota algo com bastante vontade – E esse outro ser que também é capaz de fazer isso. Como ele é?
- Não sei. Só ouvi relatos sobre ele. Inteligente, obstinado, forte, coisas assim!
- Tá, mas se a missão é impedi-lo de usar essa capacidade pra fazer o mal, devemos saber como ele é para poder encontrá-lo e detê-lo. Não?
- Sempre que suas ações alteram o fluxo natural do tempo eu consigo sentir. Como quando você está numa estrada e algum maldito salteador ateia fogo em uma vila. Eu vejo a fumaça da violação do tempo.
- Ainda assim, Gesh. É muito pouco.
- Eu consigo ter vislumbres da linha temporal original. Consigo ver onde foi alterada. Basta interagirmos com as pessoas envolvidas na bagunça. Descobriremos assim. Esse é o plano, Andrian.
- Tá, ta, que seja. Mas ainda não entendi porque eu. Foi aleatoriamente que você escolheu?
- Não existe uma forma educada de dizer isso. Você morre na esmagadora maioria das linhas temporais. Tirar você dessa linha temporal pra me ajudar não vai alterar o fluxo das coisas, entende?
- Você me escolheu porque eu não faço diferença no mundo?
- E porque você é grande. Eu senti meu Eco no único dia que me aproximei demais do ser que viaja no tempo. Fiquei desesperado. Eu literalmente vi todas as minhas outras versões morrendo e me safei de forma muito vergonhosa. Foi nesse dia que eu entendi que sozinho eu jamais conseguiria.
- Sinceramente Gesh! – Bate a mão no chão despedaçando o carvão – Qual a diferença entre você e o Arthur? Você está querendo um assassino pro seu rival!
- Ei, espera aí moção! – Engrossa também – Em nenhum momento eu falei de matar ninguém. Até porque matar não resolve. Eu sei o que fazer com ele, o que eu quero é ajuda mesmo. Mais cabeças pensando e um guarda-costas intimidador. Jamais faltaria com a verdade com você!
- Então ficamos combinados assim, Gesh. Eu serei seu guarda-costas, mas nós vamos fazer isso do meu jeito. Eu darei as prioridades e eu escolherei quando lutamos e quando partimos, estamos entendidos?
- Acho que você foi bem enfático!
- Então, primeiro, vamos resolver de vez essa história com o Cadana!